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Diversos
18/06/26 às 21:03

Ofendo-me com quem torce para que ele falhe. E explico porquê.

Discordo da solução de o ter a titular neste campeonato. Mas ofende-me a quantidade de pessoas que torce ativamente para que ele falhe. Depois do empate com o Congo, com meio mundo a criticá-lo, A torcer acontecimentos para o fazer parcer mal. A ignorar a verdade para ter uma narrativa tóxica mais redondinha.

Não vou fingir que não tenho opinião sobre o que devia acontecer neste campeonato. Acredito que Ronaldo rendia mais a entrar a sessenta minutos do que a jogar noventa, e que a equipa teria mais liberdade tática com outra solução a titular. Isso é o que penso, e não me envergonho de o dizer.

Mas há uma coisa que me ofende genuinamente neste Mundial. Não é a exibição de ontem. É a quantidade de pessoas que está ativamente a torcer para que ele falhe.

Ontem à noite, depois do empate com a RD Congo, depois de meio mundo lhe ter caído em cima, um adepto americano chegou ao pé dele com uma bola e uma caneta para autografar. A caneta caiu. Ronaldo baixou-se, apanhou a caneta, e assinou a bola. Não era obrigado a fazer isso. Podia ter passado à frente, que ninguém o culpava, que o jogo tinha corrido mal e o dia tinha sido longo. Não passou. Parou, baixou-se, e fez o gesto que aquele adepto vai contar aos filhos.

Há décadas que se repetem estas histórias. Ronaldo a afastar seguranças para deixar os adeptos aproximar-se. Ronaldo a abraçar miúdos nas bancadas quando toda a gente à volta trata isso como um obstáculo logístico. Ronaldo a aparecer em hospitais sem câmeras. A devolver bilhetes a famílias que não tinham dinheiro. A parar o autocarro da equipa para tirar uma fotografia a alguém que esperava na chuva.

Nada disto aparece nos resumos de hoje. Hoje aparecem os 25 toques na bola. Aparecem as finalizações que não entraram. Aparecem os analistas britânicos com as suas teorias sobre o que Portugal seria sem ele. Está tudo bem, é o trabalho deles, e parte desses argumentos até tem substância.

O que não está bem é a satisfação. A forma como certos comentadores respiram fundo quando ele falha, como se estivessem à espera há anos por este momento. Como se fosse uma vitória pessoal.

Ronaldo tem 41 anos e está no seu quinto Mundial. Isso não acontece por acidente nem por teimosia de federações. Acontece porque a máquina ainda funciona, porque a dedicação é de uma dimensão que a maioria de nós não consegue imaginar, e porque, quando um adepto deixa cair uma caneta depois de um jogo mau, ele baixa-se e apanha.

Duvido muito que tenhamos outro assim tão cedo. E quando ele for, vamos ter saudades até de o ver falhar.

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