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Nacional
18/06/26 às 17:42

Não é só hoje. O peso de Ronaldo é tema há anos

Cristiano Ronaldo é um dos maiores futebolistas da história. Mas o padrão repete-se há anos, da parceria comercial da FPF às negações públicas da Federação, ao desenho tático que limita a profundidade da equipa quando o capitão está em campo, segundo críticos, dados e analistas internacionais de peso.

Sobre o valor desportivo de Cristiano Ronaldo não há grande controvérsia. Mas há um detalhe que os críticos da gestão de Martínez não deixam passar. Desde que o selecionador assumiu o comando, em janeiro de 2023, Portugal venceu 21 dos 30 jogos em que Ronaldo foi titular, um aproveitamento de 70%, com 67 golos marcados. Sem ele no onze inicial, em apenas 9 jogos, a equipa venceu 6, um aproveitamento de 66,7%, mas com 33 golos marcados, uma média 64% superior por jogo. As duas maiores goleadas da era Martínez, 9-0 ao Luxemburgo e 9-1 à Arménia, aconteceram precisamente nos dois jogos em que o capitão não esteve em campo. A amostra é pequena, mas é exatamente este padrão, a equipa a libertar-se ofensivamente quando Ronaldo não está, que alimenta a tese de quem defende que o coletivo se encolhe à volta da sua presença.

Há ainda uma dimensão tática que reforça esta leitura, e que ficou visível mais uma vez na estreia contra a RD Congo. A estrutura de jogo construída à volta de Ronaldo exige que o capitão permaneça fixo junto à área adversária, à espera de cruzamentos, uma opção que o próprio Martínez justificou depois do jogo, explicando que "o centroavante precisa ter muita disciplina, ficar sempre na linha da defesa". Na análise jogador a jogador do Observador, esse desenho ficou exposto, com Vitinha descrito como um médio que passou a partida a "jogar muito para o lado e menos para a frente", sem conseguir dar à equipa a profundidade de que precisava. O Goal.com levantou esta semana a mesma questão, escrevendo que a seleção "perde grande parte de sua flexibilidade tática" por estar construída à volta da presença do capitão. A ideia de que este desenho serve sobretudo para poupar fisicamente Ronaldo é, por agora, interpretação de adeptos e comentadores, sem confirmação direta em qualquer fonte, mas o padrão de jogo mais lateralizado, à espera do capitão na área, está bem documentado, e voltou a repetir-se esta semana.

A questão que persiste, e que não é de hoje, é sobre o peso que a sua figura tem dentro da própria estrutura da Seleção e da Federação Portuguesa de Futebol. Em fevereiro, a FPF anunciou uma parceria com a AVA CR7, empresa de reabilitação física do próprio Ronaldo, levando a BBC Sport a questionar diretamente um eventual conflito de interesses. O presidente Pedro Proença reconheceu publicamente que "as duas marcas se sobrepõem", e a mesma BBC Sport revelou que Proença teve ainda de negar, em entrevista à SIC, que Ronaldo teria alguma palavra a dizer na escolha do próximo selecionador, caso Martínez deixe o cargo após o Mundial.

O padrão não é novo nem isolado. Em 2022, no Mundial do Qatar, Fernando Santos retirou Ronaldo do onze a partir dos oitavos de final, e familiares do jogador usaram as redes sociais para acusar o então selecionador de ingratidão. Já no Euro 2024, a indulgência de Martínez para com o capitão, apesar de uma seca de golos, foi descrita pelo próprio Goal.com como um erro que estava a custar a Portugal a candidatura ao título, e comentadores da CNN Portugal apontaram a gestão de estatutos como o maior erro recorrente do treinador.

Há quatro dias, a comentadora britânica Angelina Kelly, da talkSPORT, acusou a federação portuguesa de estar "demasiado obcecada com o comboio de dinheiro que o Ronaldo traz", argumentando que Martínez aceitou escolher o capitão como condição implícita do cargo. E ainda esta semana, comentadores da SIC notaram que Martínez teve mais dificuldade em retirar Ronaldo do jogo com a RD Congo do que tivera, meses antes, em prescindir de Bernardo Silva em fase de forma semelhante.

Do lado da defesa, os argumentos existem, mas são sobretudo declarações, não factos verificáveis de forma independente. Martínez garante publicamente que o estatuto de Ronaldo não condiciona o trabalho da equipa, e defende que o capitão está na seleção pelo que é hoje. Proença vai no mesmo sentido, dizendo que "Cristiano confunde-se hoje com a Seleção". São palavras de quem tem interesse direto em manter a relação como está, ao contrário da parceria comercial, das estatísticas ou do padrão tático, que existem independentemente de quem os comenta.

O génio de Ronaldo é inquestionável. A pergunta que continua a repetir-se, de Mundial em Mundial, é se a Federação e os sucessivos selecionadores conseguem gerir essa relação sem deixar que ela pese mais do que ajuda.

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