Um dado que ganha ainda mais peso quando se recorda que, antes disso, durante mais de um século, o futebol inglês foi amplamente dominado por técnicos britânicos — sobretudo ingleses e escoceses.
Há um facto incómodo que atravessa mais de três décadas de futebol inglês e que continua a resistir ao tempo, às gerações e às mudanças estruturais do jogo: desde a criação da Premier League, em 1992, nenhum treinador inglês conseguiu conquistar o título de campeão.
Um dado que ganha ainda mais peso quando se recorda que, antes disso, durante mais de um século, o futebol inglês foi amplamente dominado por técnicos britânicos — sobretudo ingleses e escoceses.
O contraste é evidente. Enquanto a era moderna da Premier League ficou marcada por nomes estrangeiros como Pep Guardiola, Jürgen Klopp, José Mourinho ou Arsène Wenger, os treinadores ingleses foram ficando pelo caminho, mesmo quando estiveram perto de quebrar o tabu. Casos como o de Kevin Keegan, vice-campeão com o Newcastle em 1995/96, ou de Harry Redknapp e Sam Allardyce, que nunca conseguiram chegar verdadeiramente à discussão do título, são exemplos recorrentes deste bloqueio histórico.
Antes de 1992, o cenário era radicalmente diferente. A antiga First Division foi, durante décadas, um território quase exclusivo de técnicos britânicos, ainda que nem sempre ingleses. Na verdade, os escoceses desempenharam um papel absolutamente central na construção das maiores dinastias do futebol inglês. O Liverpool, por exemplo, iniciou a sua era dourada sob a liderança de Bill Shankly, que revolucionou o clube nos anos 60 e lançou as bases de um domínio que se prolongaria por décadas.
Esse legado foi depois continuado dentro do célebre Boot Room de Anfield por treinadores ingleses como Bob Paisley, o técnico mais titulado da história do Liverpool, e Joe Fagan, que manteve o clube no topo, incluindo a conquista da Taça dos Campeões Europeus. Também o Manchester United foi profundamente moldado por escoceses, primeiro com Matt Busby e, mais tarde, com Alex Ferguson, o nome mais vitorioso da história da Premier League.
Treinadores ingleses como Don Revie, Brian Clough ou Howard Kendall também deixaram marcas profundas na First Division, conquistando campeonatos e construindo equipas lendárias. No entanto, com a criação da Premier League, em 1992, algo mudou de forma estrutural e definitiva.
O ponto de viragem simbólico surge em 1998, quando Arsène Wenger se torna no primeiro treinador não britânico a vencer o campeonato inglês, ao serviço do Arsenal. A partir daí, abriu-se definitivamente a porta a uma nova era, marcada por abordagens internacionais, metodologias mais científicas, inovação táctica e uma crescente globalização do futebol inglês. Os clubes passaram a procurar soluções fora de portas, enquanto a formação de treinadores em Inglaterra parecia ficar para trás.
Desde então, a lista de campeões da Premier League confirma essa tendência: escoceses, italianos, portugueses, espanhóis, alemães, chilenos e, mais recentemente, neerlandeses, como Arne Slot, campeão em 2024/25 pelo Liverpool. Os ingleses, esses, continuam ausentes do palmarés.
Hoje, a Premier League é o campeonato mais internacional do mundo, tanto dentro das quatro linhas como nos bancos. A pergunta mantém-se pertinente e desconfortável: o problema está na formação dos treinadores ingleses, na resistência à inovação ou simplesmente no contexto ultra-competitivo que a liga se tornou? Mais de 30 anos depois, o dado histórico mantém-se intacto — e continua a ser um espelho pouco favorável para o futebol que deu origem ao jogo moderno.