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Nacional
06/02/26 às 19:08

Impasse mantém-se: I Liga volta a dizer não à distribuição do mecanismo de solidariedade

Os clubes da I Liga voltaram esta sexta-feira a chumbar a distribuição das verbas do mecanismo de solidariedade da UEFA destinadas à II Liga, numa decisão que aprofunda divisões internas e reacende o debate sobre a falta de coesão no futebol profissional português.

A votação decorreu na sede da Liga Portugal, no Porto, durante a Assembleia Geral extraordinária que tinha sido suspensa a 16 de Janeiro, e confirmou um cenário já conhecido: a proposta voltou a não passar.

Em causa estava a distribuição de cerca de seis milhões de euros provenientes do mecanismo de solidariedade da UEFA, montante que permitiria a cada clube da II Liga receber aproximadamente 411 mil euros. Apesar de 13 clubes terem votado favoravelmente, os votos contra de Arouca, Famalicão, Rio Ave, Santa Clara e Moreirense foram suficientes para inviabilizar a medida, já que a aprovação exigia unanimidade. O resultado acabou por confirmar o bloqueio que já se tinha verificado no início do ano, apesar das negociações e tentativas de aproximação entre clubes.

No final da reunião, as reacções foram marcadas por um tom de desilusão e crítica aberta. Pedro Coelho Lima, director-geral do Vitória de Guimarães, lamentou profundamente o desfecho da votação e anunciou uma decisão simbólica, mas politicamente relevante: o clube minhoto irá distribuir o valor que recebeu — menos de meio milhão de euros — pelos emblemas da II Liga, numa tentativa de manter vivo o espírito de solidariedade que, segundo vários dirigentes, sempre caracterizou o futebol português.

Ainda mais duro foi Paulo Lopo, presidente do Estrela da Amadora, que considerou esta sexta-feira “um dia bastante triste para o futebol português”. O dirigente sublinhou que vários clubes mudaram de posição em relação à votação de Janeiro e acusou alguns presidentes de estarem a adoptar “tiques de grandeza”. Para Paulo Lopo, a decisão ignora a realidade financeira dos clubes da II Liga, que enfrentam receitas televisivas reduzidas e dificuldades estruturais constantes, colocando em risco a competitividade global das competições nacionais.

O líder do Estrela foi mais longe e lançou um desafio público: convidou os clubes que votaram contra a distribuição a oferecerem directamente os montantes recebidos aos emblemas da II Liga, caso entendam que a solidariedade não deve ser institucionalizada. Uma provocação que espelha o clima de tensão e frustração que se vive nos bastidores do futebol profissional.

Com esta nova recusa, o fosso entre as duas principais divisões do futebol português tende a aprofundar-se, num contexto em que a sustentabilidade financeira dos clubes continua a ser um dos maiores desafios do panorama nacional. A decisão deixa também no ar uma pergunta incómoda: até que ponto o futebol português ainda consegue falar a uma só voz quando estão em causa interesses colectivos?