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Nacional
26/01/26 às 14:16

Quando a Luz voltou ao Seixal: uma noite que diz muito sobre o Benfica

O triunfo do Benfica frente ao Estrela da Amadora, por 4-0, ficará registado nos números como mais uma vitória clara no campeonato.

Mas reduzir este jogo a um simples resultado seria ignorar aquilo que verdadeiramente marcou a noite no Estádio da Luz: o regresso inequívoco do protagonismo da formação ao centro da narrativa encarnada.

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Desde a inauguração do Benfica Campus, em 2006, o clube construiu uma identidade fortemente ligada ao desenvolvimento de jovens talentos. Ao longo dos anos, nomes como Bernardo Silva, João Cancelo, Rúben Dias, João Félix, Renato Sanches, João Neves ou Gonçalo Ramos tornaram-se símbolos de um modelo que alia rendimento desportivo, sustentabilidade financeira e ligação emocional aos adeptos. A formação, mais do que um recurso, é parte do ADN benfiquista.

Foi precisamente essa dimensão simbólica que ganhou vida nesta jornada. José Mourinho decidiu olhar para dentro e dar palco a Daniel Banjaqui, jovem lateral-direito de apenas 17 anos, campeão mundial sub-17 por Portugal. Num contexto que poderia aconselhar prudência, o treinador lançou-o de início no Estádio da Luz, deixando Amar Dedić no banco. Uma decisão que, à primeira vista, parecia arrojada, mas que rapidamente se revelou sustentada.

Banjaqui entrou sem receios. Desde os primeiros minutos assumiu protagonismo, pediu bola, arriscou no ataque e mostrou personalidade rara para a idade. Criou perigo, apareceu em zonas de finalização e revelou uma naturalidade desconcertante para quem fazia a primeira titularidade no campeonato. Defensivamente, cumpriu, com pequenas imprecisões próprias do crescimento, mas sempre com agressividade, leitura de jogo e disponibilidade física. Em 45 minutos, ganhou a confiança das bancadas — um feito que, na Luz, nunca é banal.

Na segunda parte, com o jogo controlado, os holofotes mudaram de direcção. Mourinho voltou a mexer e lançou Diogo Prioste, um médio que conhece bem os caminhos do clube e que vai consolidando o seu espaço no plantel principal. Mas a noite estava reservada para um momento ainda mais especial.

Aos 83 minutos, Anísio Cabral foi chamado para a sua estreia absoluta. Campeão europeu e mundial sub-17, o jovem avançado entrou sem imaginar que, segundos depois, escreveria história. Aos 84’, Banjaqui cruzou da direita e Anísio atacou a bola com convicção, cabeceando para o fundo das redes. Um golo, uma explosão na Luz e um dado histórico: com 17 anos e sete meses, tornou-se o jogador mais jovem a marcar pelo Benfica no século XXI. Um feito que não acontecia, em termos de menores de idade, desde Fernando Chalana, há meio século.

O simbolismo é evidente. Dois produtos da formação, da mesma geração, a ligarem-se num golo no palco maior do clube. Mais do que um momento bonito, foi uma mensagem clara para dentro e para fora. Com Anísio, Mourinho elevou para seis o número de jovens do Seixal utilizados esta época na equipa principal — um dado que merece leitura cuidada.

Este Benfica não está construído para depender estruturalmente dos jovens, mas está preparado para os integrar quando o contexto o permite. Eles surgem como opções protegidas, sem a pressão de carregar o projecto às costas, mas com espaço real para crescer. Nem todos terão continuidade imediata, nem todos se fixarão, e isso faz parte do processo.

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Ainda assim, noites como esta mostram que a formação não é apenas um discurso bonito. É uma realidade funcional, capaz de oferecer soluções, criar impacto e reforçar identidade. Num clube pressionado por resultados, ruído externo e exigência permanente, olhar para o Seixal volta a ser mais do que um gesto romântico. É estratégia. E, por vezes, basta um minuto para perceber que o futuro já está ali.