adeptos-logo
Nacional
26/01/26 às 14:21

Da Alta de Lisboa ao Estádio da Luz: a alegria que moldou Anísio Cabral e começa a marcar o Benfica

Antes dos holofotes do Estádio da Luz, dos aplausos de dezenas de milhares de adeptos e dos títulos internacionais, houve futebol de rua, campos modestos e tardes intermináveis na Alta de Lisboa.

Foi nesse cenário, marcado pela proximidade do Aeroporto Humberto Delgado e pela vida intensa de um bairro popular, que Anísio Cabral começou a construir aquilo que hoje entusiasma o Benfica. Um percurso que partilha raízes com Stevan Manuel, outro produto da mesma escola informal de talento e ambos campeões europeus e mundiais de sub-17 por Portugal.

Quando a Luz voltou ao Seixal: uma noite que diz muito sobre o Benfica

Os primeiros pontapés foram dados na União Desportiva Alta de Lisboa, clube que cedo percebeu estar perante algo diferente. Nélson Lemos, presidente da colectividade, recorda a chegada dos dois jovens como tantas outras… até deixar de o ser. Entraram nas captações, treinaram e, quase de imediato, destacaram-se. Tinham oito ou nove anos e já transportavam consigo algo cada vez mais raro: a imprevisibilidade do futebol de rua, feita de alegria, instinto e criatividade.

No caso de Anísio, essa marca era particularmente evidente. Finalizador nato, irreverente, com uma relação natural com o golo, transformava oportunidades em festejos com uma facilidade pouco comum para a idade. Já Stevan seguia um caminho distinto, mais ligado à força, à competitividade e ao controlo do jogo. Curiosamente, pedia muitas vezes para jogar a médio-centro, inspirado pelo tio, Renato Sanches, campeão da Europa por Portugal. Características diferentes, mas uma mesma base: intensidade, ambição e prazer genuíno em jogar.

Pedro Araújo, treinador que acompanhou ambos desde muito cedo, confirma esse traço comum. Anísio cresceu de forma quase exponencial à medida que foi avançando nos escalões, enquanto Stevan sempre se destacou pela atitude competitiva e maturidade. Mas mais do que talento, havia carácter. Eram miúdos do bairro, humildes, integradores, capazes de elevar o ambiente no balneário e no campo.

A ligação entre o Alta de Lisboa e a estrutura do Benfica acelerou naturalmente o salto. Sendo uma escola associada ao clube da Luz, o contacto com a prospecção encarnada era permanente. Quando ficou claro que Anísio e Stevan tinham nível para outros patamares, não houve hesitações. Anísio mudou-se para o Benfica em 2016, Stevan um ano depois. A partir daí, o percurso foi consistente e vencedor.

Nos escalões de formação do Benfica, acumularam títulos nacionais, cresceram tecnicamente e consolidaram-se como referências das respectivas gerações. O reconhecimento interno chegou cedo, com a assinatura de contratos profissionais, sinal inequívoco da confiança do clube. Actualmente, dividem o tempo entre juniores e sub-23, mas Anísio já deu o passo mais simbólico: a estreia pela equipa principal — e logo a marcar.

Para quem o viu crescer, o momento não foi surpresa. Nélson Lemos fez questão de estar na Luz nesse dia e confessa que nunca duvidou do desfecho. Entrou e marcou. Em segundos, escreveu história e transformou um percurso de bairro num orgulho partilhado por cerca de 55 mil adeptos.

O Mundial de sub-17 veio reforçar essa narrativa. Anísio foi o segundo melhor marcador da competição, com sete golos, e herói da final. Stevan foi presença constante nas opções iniciais de Bino Maçães, contribuindo também com um golo. Para quem os conhece desde pequenos, foi apenas a confirmação do que já se previa.

A questão que se coloca agora é inevitável: poderão ser apostas reais no Benfica? No Alta de Lisboa, a resposta é clara. Talento, espontaneidade e imprevisibilidade não faltam. Falta apenas tempo, contexto e continuidade. O orgulho do bairro resume-se numa frase que já corre as ruas: o Benfica tem vários campeões do mundo, mas a Alta de Lisboa tem dois.

Um ano inteiro sem cair: a impressionante série do Benfica no campeonato que não chega para liderar

Entre campos humildes e palcos grandiosos, Anísio Cabral e Stevan Manuel carregam consigo mais do que talento. Transportam uma alegria contagiante, nascida no futebol de rua, que começa agora a ganhar forma no topo do futebol português. E esta história, tudo indica, está apenas no início.