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28/01/26 às 14:22

Carlos Lopes fala em “perda irreparável” e recorda Fernando Mamede como um ícone muitas vezes incompreendido

A morte de Fernando Mamede continua a provocar uma onda de reacções sentidas no desporto português, em particular no atletismo, modalidade onde deixou uma marca profunda e duradoura.

Entre as vozes mais emocionadas está a de Carlos Lopes, campeão olímpico da maratona em Los Angeles’1984, que não escondeu a dor pela perda daquele que foi companheiro de equipa, rival e referência durante duas décadas.

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“É uma perda irreparável”, afirmou Carlos Lopes à agência Lusa, descrevendo Fernando Mamede como “um ícone do desporto”, por vezes “mal compreendido”, mas absolutamente determinante para a evolução do atletismo nacional. “Fomos colegas, fizemos coisas extraordinárias, que ficam para a história do desporto português, cada um à sua maneira. Esta perda é realmente dolorosa, mais para a família, mas também para todas as pessoas que gostam de desporto”, sublinhou.

Os dois atletas cruzaram carreiras durante cerca de 20 anos no Sporting CP, num período que ficará para sempre associado à idade de ouro do atletismo português. Carlos Lopes, o primeiro campeão olímpico nacional, reconheceu que a rivalidade saudável entre ambos foi essencial para o crescimento de cada um. “Uma vez ganhava eu, outra vez ganhava ele. O que nos distinguia era o facto de o Fernando ser mais rápido na ponta final. Cada um lutava com as armas que tinha”, recordou.

Mais do que adversários, eram parceiros de treino e de exigência máxima. Lopes foi claro ao admitir o impacto que Mamede teve na sua própria carreira: “Quero-lhe agradecer o muito que aprendi com ele, porque sem ele, eu se calhar não era tão bom”. Palavras que ajudam a perceber a dimensão humana e desportiva de Fernando Mamede, muitas vezes reduzido apenas aos recordes e aos resultados.

Natural de Beja, Fernando Mamede foi durante cinco anos recordista mundial dos 10.000 metros, entre 1984 e 1989, e marcou presença em três edições dos Jogos Olímpicos — Munique’1972, Montreal’1976 e Los Angeles’1984. Sempre ligado ao Sporting, clube que representou desde 1968, por intermédio do lendário Mário Moniz Pereira, Mamede bateu 27 recordes nacionais e três recordes europeus, números que falam por si.

O ponto mais alto da sua carreira surgiu a 2 de Julho de 1984, em Estocolmo, no meeting DN Galan, quando correu os 10.000 metros em 27.13,81 minutos, estabelecendo um recorde do mundo que resistiria durante mais de cinco anos. Nessa prova histórica, Mamede bateu Carlos Lopes, segundo classificado com 27.17,48, superando ainda a marca do queniano Henry Rono. Um momento imortalizado, anos mais tarde, numa criação musical da dupla Éme e Moxila.

O recorde mundial viria a cair apenas em 1989, quando o mexicano Arturo Barrios fixou o novo máximo em Berlim. Ainda assim, passadas mais de quatro décadas, Fernando Mamede continua a ser o último atleta europeu a deter o recorde mundial dos 10.000 metros, um dado que reforça a dimensão histórica do seu feito.

A Federação Portuguesa de Atletismo também reagiu à morte do antigo fundista. Carlos Paula Cardoso, antigo presidente da FPA, recordou Mamede como um “atleta excecional” e um “recordista do mundo” que deixou um “legado enorme” ao desporto português. “Talvez a prova que mais gostei de o ver fazer foi nos campeonatos ibero-americanos de 1983, em Barcelona. Aos 5.000 metros já tinha quase uma volta de avanço”, contou.

Também Armando Aldegalega, amigo próximo e companheiro de treinos durante décadas, lamentou a perda, admitindo que os nervos poderão ter impedido Mamede de chegar ainda mais longe. “Podia ter sido campeão olímpico, mas era demasiado nervoso, preocupava-se muito com a competição”, disse, lembrando episódios que revelavam o seu carácter introspectivo e solitário.

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Fernando Mamede morreu aos 74 anos, alegadamente devido a complicações cardíacas. O atletismo português perde um dos seus maiores símbolos, mas ganha a responsabilidade de preservar a memória de um atleta extraordinário, cuja grandeza ultrapassou títulos e medalhas.