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28/01/26 às 12:26

Apostas proibidas levam a suspensão inédita no atletismo europeu

O atletismo europeu está a lidar com um caso raro — e com potencial para criar um precedente importante.

A atleta francesa Aurore Fleury foi suspensa por seis meses pela Unidade de Integridade do Atletismo (AIU), depois de ter apostado online na vitória de uma compatriota durante o Campeonato Europeu de Atletismo de 2024, disputado em Roma. A sanção, embora relativamente curta, é histórica: trata-se do primeiro castigo aplicado pela AIU a um atleta por apostas desportivas desde a criação do organismo, em 2017.

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Segundo revelou o site francês Spe15, Aurore Fleury — bicampeã nacional francesa dos 1.500 metros — terá apostado na vitória de Alice Finot na final dos 3.000 metros obstáculos, disputada a 9 de Junho de 2024. Finot acabaria mesmo por vencer a prova, com a aposta a ser considerada vencedora. Nem o montante apostado nem o valor do prémio foram tornados públicos.

Apesar de Fleury não ter participado no Europeu de Roma, a AIU entendeu que a sua proximidade pessoal e desportiva com Alice Finot configurava um caso de utilização de informação privilegiada. De acordo com os regulamentos da World Athletics, qualquer atleta que aposte num evento ou noutro atleta numa competição oficialmente reconhecida está automaticamente em violação das regras relativas à manipulação de resultados e integridade competitiva.

A Unidade de Integridade do Atletismo sustenta que estas normas existem para prevenir conflitos de interesse, proteger a credibilidade da modalidade e evitar qualquer suspeita, mesmo quando não há indícios de manipulação direta do resultado. No entender da AIU, o simples acto de apostar já compromete a confiança no sistema competitivo, sobretudo quando envolve relações pessoais próximas entre atletas de alto nível.

Até ao momento, a AIU não emitiu um comunicado oficial detalhado sobre o caso, mas fontes citadas pela imprensa francesa indicam que a suspensão de Aurore Fleury estará em vigor até Março de 2026. A atleta, de 32 anos, optou por não comentar publicamente a situação, afirmando apenas que aguarda o dossier oficial do organismo disciplinar antes de se pronunciar.

Curiosamente, Fleury não compete desde Agosto de 2025, mês em que alcançou o seu melhor registo pessoal nos 800 metros, com a marca de 2.02,10. A suspensão surge, assim, numa fase de relativa inatividade competitiva, embora possa ter impacto significativo no futuro da atleta e na sua reputação dentro da modalidade.

Este processo ganha ainda maior relevância por ser o primeiro caso do género desde a fundação da AIU. Embora tenham existido episódios de manipulação de resultados no atletismo internacional ao longo da última década, nenhum envolveu, até agora, um atleta a apostar diretamente no desfecho de uma prova de outro corredor. O caso Fleury expõe também uma fragilidade conhecida do sistema: a maioria das casas de apostas não verifica se os seus utilizadores são atletas, treinadores ou árbitros, intervindo apenas quando são detectados padrões anormais ou volumes de apostas considerados suspeitos.

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Segundo as mesmas fontes, o valor apostado por Fleury terá sido suficientemente elevado para acionar os mecanismos de alerta da casa de apostas, o que acabou por desencadear a investigação. Independentemente do montante, o episódio lança um aviso claro ao universo do atletismo: as regras são estritas, a vigilância é real e a margem para “zonas cinzentas” é cada vez menor.