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16/01/26 às 19:50

Perdeu um Olho, Sobreviveu a um Atentado e Chegou ao Europeu: A História Extraordinária de Antonio Serradilla

O andebolista espanhol que já venceu batalhas suficientes para uma vida inteira

Aos 27 anos, Antonio Serradilla carrega uma história que ultrapassa largamente as linhas do campo. O lateral espanhol, actualmente integrado na Seleção Espanhola de Andebol no Campeonato da Europa de Andebol, é hoje um símbolo de superação num desporto habituado a histórias de dureza — mas raramente a este nível.

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Natural de Sevilha, Serradilla iniciou o seu percurso no Club Balonmano Montequinto, passou pelo Guadalajara e afirmava-se no Ciudad de Logroño quando a vida lhe colocou um obstáculo que parecia definitivo: um diagnóstico de melanoma ocular. A solução médica foi radical e irreversível — a remoção completa do olho direito. Naquele momento, o futuro no andebol era uma incógnita total. Hoje, menos de uma década depois, Serradilla está a disputar um Europeu… depois de já ter conquistado a Liga dos Campeões.

“Nunca me rendi àquilo que realmente queria”

Em entrevista ao jornal El Español, Serradilla recordou o momento em que tomou a decisão que mudou tudo. Assumiu a cirurgia com uma serenidade que ainda hoje o surpreende. Perder a visão de um olho significava reaprender a viver, reaprender a jogar — e aceitar que nada voltaria a ser exactamente igual.

“Foi uma decisão duríssima, mas tomei-a com naturalidade. O que importava era continuar a jogar andebol”, explicou. Com o distanciamento do tempo, diz orgulhar-se de nunca ter desistido, mesmo quando não fazia ideia se voltaria a competir ao mais alto nível. A resposta chegou em 2024, quando conquistou a Liga dos Campeões de Andebol ao serviço do SC Magdeburgo.

Jogar andebol com um só olho

A adaptação não foi simples. Serradilla descreve o processo como uma aprendizagem constante. A redução drástica do campo de visão obriga a antecipar tudo: movimentos, contactos, trajectórias. Leva mais pancada, choca mais vezes com adversários e tem de decidir em fracções de segundo com menos informação visual do que qualquer outro jogador em campo.

“Se tapares um olho, percebes logo as dificuldades. O campo parece mais pequeno, tudo acontece mais depressa”, explica. O corpo, ainda assim, acabou por se adaptar. Depois da Noruega, onde representou o Elverum Handball, seguiu para a Alemanha, passando pelo Magdeburgo e chegando agora ao TVB Stuttgart.

As dificuldades estendem-se ao quotidiano: tropeça frequentemente na rua, tem de rodar todo o corpo para olhar pelo retrovisor direito ao conduzir, vive com uma atenção permanente que nunca desliga. Se fora do campo já é exigente, dentro dele torna-se quase sobre-humano.

O dia em que escapou à morte

Como se a batalha contra o cancro não bastasse, Serradilla viveu outro momento traumático que o marcou para sempre. Em Dezembro de 2024, encontrava-se no mercado de Natal de Magdeburgo quando um carro avançou sobre a multidão num ataque terrorista, provocando cinco mortos e mais de 200 feridos.

O espanhol escapou ileso — por uma margem mínima.

“Foi o maior medo que senti na vida”, confessou. “Se estivesse dois metros mais à esquerda, não estaria aqui.” As imagens, os sons e o pânico ficaram gravados. Ainda hoje admite sentir receio em grandes aglomerados de pessoas. Não foi uma batalha física, foi psicológica — e talvez a mais difícil de todas.

Do improvável ao Europeu

Seis anos depois da última convocatória, Antonio Serradilla regressa agora à selecção espanhola para disputar a sua primeira grande competição internacional. Não como promessa, não como história bonita, mas como campeão europeu de clubes e atleta plenamente integrado num dos plantéis mais competitivos do continente.

A sua presença no Europeu é mais do que uma escolha desportiva. É um lembrete poderoso de que o andebol — e o desporto em geral — também é feito de resistência, coragem e humanidade.

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Alguns jogadores chegam aqui pelo talento. Outros chegam pela persistência. Serradilla chegou porque nunca aceitou que a vida lhe dissesse “não”.