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28/01/26 às 12:20

Fernando Mamede (1951–2025): despede-se o maior corredor português da história da pista

O atletismo português está de luto.

Faleceu Fernando Mamede, aos 74 anos, uma das figuras maiores do desporto nacional e, para muitos especialistas, o melhor atleta português de sempre em provas de pista. Natural de Beja, Mamede representou exclusivamente o Sporting CP ao longo de toda a carreira, que terminou em 1990, deixando uma marca profunda e praticamente irrepetível no atletismo nacional e internacional.

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A ascensão de Fernando Mamede foi tão rápida quanto impressionante. Ainda júnior, em 1970, bateu o primeiro dos seus 27 recordes de Portugal, um número extraordinário que se estendeu por todas as distâncias entre os 500 e os 10.000 metros. Nesse mesmo ano, somou a primeira internacionalização, correndo os 800 e os 1.500 metros em Rabat, num encontro entre Marrocos e Portugal. Era o prenúncio de uma carreira longa, exigente e recheada de feitos que colocariam o seu nome entre os grandes da história da modalidade.

Ao longo da carreira, Fernando Mamede foi 27 vezes internacional em pista, participou em três Jogos Olímpicos, um Campeonato do Mundo e três Campeonatos da Europa. No corta-mato, vestiu as cores nacionais por mais 15 ocasiões e tornou-se recordista de presenças no Campeonato do Mundo da especialidade, não falhando qualquer participação portuguesa entre 1973 e 1989 — com excepção dos anos em que Portugal não esteve presente (1974 e 1975). Um exemplo raro de longevidade e regularidade ao mais alto nível.

No plano interno, o domínio foi absoluto. Fernando Mamede conquistou 20 títulos de campeão nacional, entre 1970 e 1986, incluindo seis títulos de corta-mato. Em 1987, já numa fase mais avançada da carreira, protagonizou um dos momentos mais simbólicos do atletismo português ao ceder a vitória ao jovem companheiro de equipa Dionísio Castro, num gesto de desportivismo que continua a ser recordado como exemplo de classe e espírito olímpico.

Apesar de nunca ter conquistado um grande título internacional — o melhor resultado foi um terceiro lugar num Campeonato do Mundo de Corta-Mato —, Fernando Mamede pertence a um patamar reservado a muito poucos. Foi três vezes recordista europeu e mundial dos 10.000 metros e, durante quatro anos consecutivos (1981-1984), liderou os rankings mundiais dos 5.000 metros (uma vez) e dos 10.000 metros (três vezes). Um domínio absoluto numa das épocas mais competitivas da história da disciplina.

Os três grandes momentos da sua carreira surgiram no início da década de 1980. O primeiro aconteceu no Estádio José de Alvalade, no Meeting do Sporting, quando bateu o recorde europeu dos 10.000 metros com 27.27,7. Poucos dias depois, em Paris, recuperou o recorde europeu que Carlos Lopes havia estabelecido 13 dias antes, fixando a marca em 27.22,95, a escassos décimos do recorde mundial. O momento mais icónico chegaria em Estocolmo: 27.13,81, novo recorde mundial, que resistiu durante mais de cinco anos e entrou definitivamente para a história do atletismo.

Fernando Mamede terminou a carreira em 1990, aos 38 anos, depois de duas décadas ao mais alto nível. Nunca foi apenas um grande corredor: foi uma referência técnica, competitiva e humana. O melhor corredor português de sempre em pista, um nome incontornável do desporto nacional.

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À família e amigos de Fernando Mamede, ficam as sentidas condolências. O atletismo português despede-se de um dos seus maiores símbolos, mas o legado permanece — nos recordes, na memória colectiva e na história do desporto.